Babaçu Love divulga seu trailer oficial 

Após 13 anos de produção, filme mostra que está pronto para conquistar o Brasil

Por: Por Kelma Gallas | Data: 21/03/2026 16:06 - Atualizado em 21/03/2026 17:59


Depois de uma longa espera, o público finalmente pôde ver as primeiras imagens de Babaçu Love. O trailer oficial do novo filme do diretor piauiense Cícero Filho foi lançado nesta semana, marcando o retorno do cineasta ao audiovisual de longa-metragem após mais de uma década. O filme levou 13 anos para ser finalizado, tempo que reflete o próprio amadurecimento do diretor, enquanto criador de uma obra única no cinema independente brasileiro. 

O trailer de Babaçu Love surge como quem abre uma fresta. Não revela tudo, mas indica um território: estradas longas, palmeirais, corpos em deslocamento e vozes que tentam ser ouvidas. Há ali um Brasil que não costuma ocupar o centro da tela. E talvez seja exatamente esse o seu ponto de partida da história: “Depois de 13 anos sem lançar filmes, estamos de volta com Babaçu Love, uma comédia musical com um drama muito forte”, afirma o diretor Cícero Filho.

No centro da narrativa está Diloura (Amanda Odillon), jovem cantora e quebradeira de coco que decide romper com a vida em sua cidade, Ramadinha, para buscar reconhecimento no mercado musical. Ao seu lado, orbitam figuras que tensionam esse percurso: o ambicioso Ransquelson Ruschel (Whindersson Nunes), namorado que representa o desejo de ascensão a qualquer custo, e Araújo (Alisson Emanoel), melhor amigo de Diloura, um amigo dedicado e fiel.

A estrutura do filme se aproxima do road movie, mas desloca o gênero para transitar entre o drama e a comédia, atravessando cenários do interior nordestino, estradas empoeiradas do Maranhão e Piauí. E a estrada, aqui, não é apenas cenário; é uma metáfora de uma persistência: a busca de um sonho. A banda percorre pequenas cidades, enfrenta palcos improvisados, negocia cachês incertos e se insere em circuitos periféricos da indústria cultural. 

Mas o filme não se reduz a trajetória da banda mambembe. A trama se expande para outro eixo, igualmente central: o trabalho das quebradeiras de coco babaçu e a sua organização política, representado pela figura de Paraibana (Gisele Vasconcelos), mãe de Diloura. Enquanto a filha busca o estrelato, a mãe organiza coletivamente mulheres que lutam pelo direito de explorar os babaçuais, enfrentando atravessadores e estruturas de poder. Esse duplo movimento — ascensão individual e luta coletiva — organiza o conflito do filme. Porque há conflito também entre mãe e filha. Ela, uma cantora que abandonou tudo para cuidar da família; e a jovem, que tudo quer, rebela-se contra o seu provável destino.

A trajetória de Diloura segue um percurso clássico: sair, enfrentar o mundo, fracassar e retornar. Mas o filme reorganiza esse arco ao deslocar o sentido do sucesso. Ao retornar, a personagem encontra não apenas uma cidade transformada, mas uma nova forma de inserção no mundo, menos orientada pela fama e mais pelo pertencimento.

 

Na foto, a protagonista Amanda Odillon e o cineasta Cícero Filho. Foto by Rwanyto Oscar 

O Brasil que o cinema raramente enquadra

Ao inserir o universo das quebradeiras de coco no centro da narrativa, Babaçu Love aproxima-se de um campo de reflexão caro às ciências sociais brasileiras. Quando o antropólogo Darcy Ribeiro descreveu o “Brasil profundo”, ele se referia a essas camadas historicamente invisibilizadas, mas estruturantes da vida social. E Babaçu Love parte exatamente desse ponto: “Eu sempre digo: o que eu mais desejo é contar histórias com o máximo de profundidade possível, mostrar esse universo ainda inexplorado, que é o universo do Babaçu Love, das quebradeiras de coco, da luta ambiental, das pequenas bandas”, explica Cícero Filho.

O diretor explica que a escolha não é apenas temática. É também política e estética. Ao invés de reproduzir o Nordeste como espaço de carência, imagem consolidada por décadas de representação nas artes brasileiras, da literatura ao cinema, o filme propõe um outro olhar: o Nordeste de matas verdejantes, de cachoeiras de águas cristalinos, o céu de azul intenso, riqueza natural e gente de verdade, com seus desejos e aspirações. Essa perspectiva dialoga com leituras contemporâneas que apontam para a emergência de novos regimes de visibilidade no audiovisual brasileiro, em que o interior deixa de ser “fim de mundo” e passa a ser lugar de circulação, desejo e produção cultural.

 

Entre a indústria cultural e suas margens

Ao acompanhar a trajetória de uma banda do interior, precarizada mas insistente, o filme tensiona a própria lógica da indústria cultural, dialogando com teóricos como Theodor Adorno, para quem os sistemas de produção cultural tendem à padronização, o que coloca artistas periféricos em posição de desvantagem estrutural. No filme, a ideia não é oferecer uma solução mágica para a banda em suas aspirações de sucesso. É mostrar os circuitos invisíveis, os contratos frágeis, as promessas instáveis e os desafios que se marcam as experiências dos personagens. O filme ecoa, nesse sentido, uma questão mais ampla: quem pode ocupar o centro do espetáculo?

Se o tema do filme trata de resistência, seja na cultura, seja nos babaçuais, a própria produção do longa não escapou dos desafios de permanecer firme mesmo depois de 13 anos de intensa luta. “A gente que trabalha com cinema independente: a gente carrega o piano, afina o piano, lustra o piano e toca o piano. A resistência e a persistência está na alma de nosso cinema: é nossa identidade. Só para citar um exemplo: o trailer. Quem editou fui eu, gente. Eu e meu irmão, fizemos esse material”, conta Cícero.

As falas, que revelam um modo de produção marcado pela ausência de estrutura contínua, pela multiplicidade de funções e pela centralidade do engajamento pessoal, explicitam essa ideia de resistência e persistência. O projeto chegou a ter cerca de 70% das filmagens concluídas antes de sua fase final de captação, atravessando diferentes etapas até alcançar a finalização.

Babaçu Love revela o desafio do cinema independente

Agora, com o trailer lançado, Babaçu Love entra em uma nova etapa. Cícero adianta que o lançamento oficial ocorrerá em São Paulo, ao mesmo tempo em que a equipe busca ampliar a presença da obra em outras regiões. “A gente quer muito chegar, pelo menos, nos cinemas do Nordeste. Estamos lutando para isso.” Ele também confirma negociações com plataformas digitais: “Nós estamos inclusive em conversas importantes com streams também.”

Os desafios para a empreitada não diminuem a sua coragem. “Eu não sou de reclamar, eu sou de superar.” E completa: “Eu prefiro reagir com positividade, com perseverança, coragem, fé e bom ânimo, né? Porque sem isso ninguém chega a lugar algum.”

O trailer, nesse sentido, não é apenas uma peça de divulgação. Ele funciona como evidência de um processo longo, marcado por obstáculos e continuidades. Depois de 13 anos, Babaçu Love deixa de ser promessa e começa, finalmente, a se tornar presença.

 

 

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